PESADELOS

Um pesadelo horrível, vozes do passado e acontecimentos insólitos atormentam a mente de Julian até chegar a um desfecho inimaginável.

Um som atordoante semelhante a uma buzina ininterrupta.

Julian acorda gritando apavorado e encharcado de suor. 

– Que pesadelo! – exclama, ainda escutando o barulho ecoando em sua cabeça. É terça-feira, ele se senta na cama e fica um instante pensativo, relembrando o passado recente: o rompimento de seu namoro com Alice há duas semanas.

Depois de três anos muito felizes juntos, o casal começou a enfrentar problemas. A demissão de Julian foi o estopim da crise. Alice resolveu terminar. O rapaz não aceitou bem o término, mas com o tempo começou a se acostumar com a ideia… até a noite passada.

Julian, na noite anterior, segunda-feira, estava organizando seus arquivos do computador na expectativa de ser chamado para trabalhar em uma nova empresa. Ele trabalha como TI e a organização de sua principal ferramenta de trabalho, seu notebook, era fundamental. Foi quando se deparou com fotos mais antigas, do início de seu namoro com Alice. Julian se lembrou de como era bom estar com ela naqueles dias pregressos. Tais memórias não fizeram bem para o rapaz, que teve uma recaída. No intuito de beber para afogar as mágoas, notou que não tinha nenhuma bebida em casa e saiu para comprar. Em uma loja de conveniência próxima, comprou uma garrafa de whisky, voltou para casa, sentou-se no sofá e começou a beber.  Uma hora depois, já entorpecido pelo álcool, sua vontade era de ir ao encontro de Alice, porém, conseguiu controlar-se. Bebeu mais um pouco e apagou.

Voltando ao presente dia. Julian se levanta da cama, com aquela dor de cabeça característica da ressaca e abre a janela do quarto. A luminosidade que entra lhe ofusca os olhos, ele fecha a janela de volta, rapidamente. 

– Essa ressaca bateu forte – pensa, dirigindo-se para a cozinha a fim de fazer um café.

Café preparado. Aquele aroma gostoso e estimulante já alivia a péssima sensação de ressaca do rapaz. Um pão com manteiga seria uma perfeita companhia para este café. Julian abre a geladeira para pegar a manteiga e escuta uma voz grave masculina dizendo: “Coma!” Ele se assusta, começa a olhar para os lados à procura da origem da voz. Não vê nada, ninguém. 

– Será que veio do vizinho do lado? – se pergunta, incrédulo.

 – Pareceu vir de dentro da minha cabeça. Uma mensagem para eu comer? Sim, eu vou comer, vai me fazer bem. Inclusive, vou parar de ouvir vozes, pois deve ser efeito da ressaca ainda.

Dito e feito. Julian se sente muito mais revigorado depois do seu café forte e um pão bem recheado de manteiga. Vai até a sala, procura no sofá, no chão, debaixo dos móveis, mas não encontra a garrafa de whisky que tomara noite passada. 

– Já devo ter posto no lixo – pensa, enquanto senta no sofá. Começa a tentar organizar as ideias em sua cabeça, esquecer novamente Alice, deletar aquelas fotos e se focar no novo trabalho. Ele segue no aguardo de ser chamado na tal empresa.

Julian volta ao seu notebook e termina de organizá-lo. Tarefas cumpridas, vai se deitar um pouco. Já estava anoitecendo e ele havia acordado tarde. Passando pelo corredor, em direção ao seu quarto, Julian dá um grito de dor. Olha para baixo e vê que pisou em cacos de vidro. Seu pé está cortado e o sangue verte para o carpete do corredor.

– Que diabos é isso? A garrafa de whisky? Não, os cacos são muito grossos pra serem de uma garrafa. – se questiona. O rapaz vai ao banheiro, lava o pé cortado e cobre o ferimento em seu calcanhar com uma gaze presa com esparadrapos. Varre os cacos de vidro, bota na lixeira e, finalmente, vai até o seu quarto. Anda mancando, deita-se na cama e cai em sono profundo. Seu corpo ainda está cansado e sua mente abalada, o repouso é imprescindível.

Manhã de quarta-feira. Julian acorda se sentindo renovado. Surpreende-se com o quanto dormiu e se levanta. Pega o seu celular para ver se tem algum recado da empresa. Nada. Encaminha-se para a cozinha, já é quase meio-dia e ele está faminto. Abre a geladeira e fica atento, cuidando se escutaria novamente alguma voz. Silêncio. Julian sorri e pega frios e algumas verduras. Desempregado há mais de um mês, o rapaz se encontra na necessidade de economizar, por isso anda se alimentando praticamente só de lanches e comidas baratas. Um enorme sanduíche é montado e ele senta-se à mesa para comê-lo.

Satisfeito, Julian desfruta daquele momento, se acomoda na cadeira, respira fundo e fecha os olhos. Ouvem-se choros. Ele arregala os olhos e volta a se assustar. Choros baixinhos que parecem estar próximos, mas não se sabe exatamente de onde vêm. Julian se levanta, começa a olhar para cima, olhar para os lados e dar voltas em torno de si mesmo. 

– De onde estão vindo? O que está acontecendo? – se questiona, abrindo os braços.

– Será que estou sonhando? Um outro pesadelo? É como se eu estivesse em um sonho dentro de outro sonho, como naquele filme, “A Origem”. Mas isso é absurdo!

Logo, ele escuta uma voz diretamente ao pé do seu ouvido. Isto lhe arrepia até a espinha:

– Julian, me perdoa. Eu te amo! – era uma voz feminina, falando baixinho, parecia-se muito com a voz de sua ex-namorada, Alice.

O pavor toma conta dele, que se descontrola, enche os olhos de lágrimas e começa a balbuciar, tentando encontrar palavras, tentando entender o que está acontecendo, enquanto caminha nervoso de um lado para o outro da cozinha.  Então ele começa a se preocupar com Alice. Corre para o quarto, pega o celular no criado-mudo para ligar para ela, mas este está sem sinal.

– Droga! Justo agora! O que aconteceu com você, Alice? Me diga, eu estou te ouvindo! – pensa o rapaz, pois não consegue pronunciar as palavras direito, tamanho é o seu nervosismo. Nada mais se escuta.

Julian se ajoelha e começa a chorar. Ali, ele percebe que ainda a ama e que não superou o término dos dois. E agora, para piorar, está começando a acreditar que Alice está morta e tentando se comunicar com ele. Julian começa a sentir um aperto, não no peito, mas no corpo inteiro, uma sensação agonizante. Ajoelhado, apoia as mãos no chão, olhando para baixo. Repentinamente, sente um odor horrível. Se parece com algum produto químico, mas não consegue distingui-lo.

– Ela está morta, está morta! – ele cai em prantos, não consegue encontrar forças para sair dali. Julian fica ali parado, na mesma posição, por alguns minutos. 

Logo, o rapaz consegue se recuperar. Levanta-se e vai pegar a chave do carro, com o intuito de ir à casa de Alice. Para seu desespero, a chave não é encontrada. Ele a deixa sempre dentro de uma gaveta em um móvel da sala, mas não está lá e nem em nenhum outro lugar que Julian a procure. Desesperado, vai ao banheiro procurá-la. Ele anda tão atordoado que naquele momento a chave poderia estar em qualquer lugar.

Chegando ao cômodo abaixo da pia, ele abre a gaveta e nada. Solta um suspiro profundo, bufando. Apoia as duas mãos na pia e levanta a cabeça. Ao se olhar no espelho, nota que sua cabeça está sangrando. Agora, Julian não entende mais nada mesmo. O sangue começa no topo da cabeça e escorre pelo lado do pescoço. É massivo, escuro. Bota a mão e sente um buraco, um ferimento grande e gosmento, porém, não sente dor alguma. Começa a mexer no ferimento e nota que há algo cravado ali. Segura no objeto e faz força para puxá-lo até conseguir. No ato, espirra sangue por todos os lados, inclusive no espelho. Para mais uma surpresa sua, era um grande pedaço de vidro, semelhante àqueles cacos em que havia pisado acidentalmente em seu corredor na noite passada. Este pedaço deve ter o tamanho de uns três dedos. Ele, então, olha para o seu pé ferido, tira os esparadrapos e a gaze e se surpreende. O ferimento havia sumido por completo, não havia mais nada. O rapaz levanta a cabeça, olha de novo para o espelho e o mesmo acontece com sua cabeça: não havia mais ferimento nenhum. Assim como também não havia mais sangue no espelho e nem nas paredes do banheiro. Julian põe a mão na cabeça e não sente mais o buraco. O pedaço de vidro também desapareceu dali. Ele já nem se surpreende mais, na verdade, nem sabe mais o que sentir e nem o que pensar.

Julian resolve sair de casa a pé, era a única coisa que lhe restava fazer. Ao passar pela sala, em direção à porta da frente, escuta um barulho alto, desta vez vinha de cima. 

– Algo no telhado? No forro? – se questiona mentalmente o rapaz, enquanto olha para cima fixamente, perto do lustre do teto. 

Os barulhos continuam, cada vez mais altos. Sente-se um tremor na sala. Começam a aparecer frestas entre as madeiras do teto. O forro se abre e, nisso, uma grande quantidade de terra começa a descer do teto para o chão da sala. Julian fica paralisado, boquiaberto, olhando para o bizarro acontecimento. Abre-se um rombo no teto, o lustre cai e se espatifa no chão. A terra começa a tomar conta de todo o cômodo. A porta da frente logo fica interditada, Julian corre em direção ao quarto para se proteger. 

No quarto, acontece o mesmo. O teto se rompe violentamente em uma cachoeira de terra. O rapaz está cercado. Fica no meio do corredor, olhando de um lado a terra tomar conta da sala e da cozinha e do outro, tomar conta do quarto e do banheiro. Julian se vê sem saída, em crescente agonia, enquanto aquele “mar” de areia chega até ele.

A poucos centímetros de ser engolido, Julian aperta os olhos com força, cruza os braços sobre o corpo, pressionando o mesmo. Logo, tudo fica escuro. Completamente escuro. Julian se encontra deitado, quase imóvel. Consegue mexer levemente pernas e braços, mas parece ter um limite físico, seus membros batem em algo duro. Seu coração dispara, a adrenalina aumenta e, junto, vem uma sensação de claustrofobia. Ao mesmo tempo, ele agora sente-se desperto, como se tivesse acordado de um enorme pesadelo. E então, em uma fração de segundos, o rapaz vislumbra toda a situação a qual passara até o momento.

No início da noite de segunda-feira, Julian havia bebido meia garrafa de whisky com a finalidade de esquecer Alice, sua ex-namorada. No entanto, ele acordou no meio da madrugada, sob forte efeito alcoólico, e decidiu que iria até a casa dela. Pegou o carro, saiu e começou a dirigir em alta velocidade, segurando a garrafa de whisky em uma das mãos. Seus olhos estavam ora na estrada e ora na garrafa. Faltando poucos metros para chegar à casa de Alice, ele perdeu o controle do veículo e invadiu a contramão. Quando olhou para a frente e se deu conta, já era tarde demais. Julian avistou somente os faróis do carro à sua frente, ofuscando sua visão, enquanto escutava a buzina contínua e desesperada do motorista. O choque foi imenso. Mesmo usando o cinto de segurança, o rapaz bateu violentamente com a cabeça no para-brisa, estilhaçando-o. Um pedaço de vidro cravou profundamente em sua cabeça.

Alice escutou o estrondo da batida, assim como todos os seus vizinhos. A garota foi correndo até o local para saber o que tinha acontecido. Quando viu Julian desacordado, chamou imediatamente uma ambulância. Ela o acompanhou até o hospital. 

Como resultado do acidente, Julian entrou em coma. Por muito pouco não foi a óbito, mas a situação era muito delicada. Sua ex-namorada ficou ao seu lado durante toda a noite. Preocupada, porém zelosa.

A situação de Julian se manteve durante todo o dia de terça-feira. À noite, Alice foi vê-lo no hospital e acompanhou-o novamente em seu quarto. Durante a madrugada de quarta-feira, os sinais vitais de Julian foram diminuindo até parar completamente. Ele foi, então, dado como morto. A tristeza e a comoção tomaram conta de Alice e dos familiares do jovem. O funeral saiu na tarde daquele mesmo dia de quarta-feira.

Durante o funeral, Alice sentiu-se culpada. Bateu-lhe um grande remorso e ela chorou muito. No final, chegou bem perto do ouvido de Julian, sussurrou que lhe amava e pediu perdão. Logo, o caixão com o corpo do rapaz foi devidamente enterrado.

Voltando ao presente. Após o vislumbre, Julian, em grande aflição, começa a sentir pequenas porções de terra caindo sobre o seu corpo. Ali, então, ele percebe o grande pesadelo real em que se encontra: Julian acordou do coma e está dentro de um caixão, enterrado em um cemitério, a sete palmos do chão. Vivo.

Sobre o autor: Publicitário, Designer, Escritor e um entusiasta das artes em IA. Apaixonado pelo tema Terror desde pequeno, seja nos filmes, quadrinhos, ilustrações, músicas ou artes em geral. Seu estilo explora uma narrativa envolta em mistérios e personagens dramáticos que vai ganhando sentido com o desenrolar da trama. Gosta de plot twists e finais aterrorizantemente impactantes. Ricardo G. Lopes, atualmente, tem navegado também em outros mares, como o Terror Sci-Fi e pitadas de Dark Fantasy.

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Apresentado pelo enigmático Amadeus Cripta, guardião dos segredos mais sombrios escondido nas profundezas de uma antiga catacumba, "Ecos & Silêncio - Volume 1" é uma coleção imperdível de contos macabros que promete arrepiar até as almas mais corajosas. Neste volume você encontrará Vozes do Submundo, O Jugo da Escuridão, Safra Perfeita e Ventos Passados. Sente-se, relaxe e desfrute da escuridão.

Vozes do Submundo: Um conto cheio de aventura e criaturas sinistras, onde o irmão mais velho embarca numa jornada desesperada para salvar o mais novo.

O Jugo da Escuridão: Um jovem promissor, recém-promovido, é surpreendido pela violência à porta de sua casa. Durante treze dias, as coisas irão piorar expressivamente, mergulhando-o num abismo de desespero e medo.

Safra Perfeita: As coisas não vão bem na fazenda dos Maldonado. A filha do fazendeiro, Elisa, tem revelações terríveis e observará mudanças bizarras na fazenda. Será uma oportunidade ou uma maldição?

Ventos do Passado: A história de Celina. Uma mulher na meia idade, ávida por livros de romance. Desejosa por um amor idealizado, ela o recebe de onde menos espera.

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Ano: 2024

ISBN: 9786501106076

Páginas: 92

Papel: Polen 80g

Formato: 14x21cm

Acabamento: Brochura

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